Sabe aquela historinha que depois dos 45 anos só resta esperar a aposentadoria? Pois é, o Brasil acabou de rasgar esse roteiro, e na frente de todo mundo.
Pela primeira vez na história do país, os profissionais com mais de 45 anos representam um terço dos novos empreendedores brasileiros. E não é achismo não: são dados duros da pesquisa GEM 2025, realizada pelo Sebrae em parceria com a Anegepe. O número exato? 33,7% dos empreendedores iniciais estão nessa faixa etária. A maior proporção registrada desde que a pesquisa começou, lá em 2000.
Em bom português: enquanto muita gente jovem ainda está decidindo entre fazer faculdade ou virar influencer, o pessoal da meia-idade está abrindo CNPJ.
Por Que Isso Está Acontecendo?
A explicação tem dois ingredientes principais, segundo os especialistas:
1. Experiência + capital acumulado + saco cheio de chefe = empresa própria. Muita gente chega aos 45 com bagagem profissional pra vender, uma grana guardada e a clara consciência de que já passou da hora de trabalhar por conta própria.
2. O mercado de trabalho que não para de se reinventar (e às vezes empurra a gente). Etarismo é real, algoritmos de recrutamento eliminam currículos antes de qualquer entrevista, e a recolocação após os 45 pode ser uma maratona sem linha de chegada. Resultado: empreender vira tanto escolha quanto saída.
"Alguns chegam com experiência, capital e vontade de construir algo próprio. Outros encontram barreiras para se realocar. Os dois movimentos fortalecem os números."
Eliane Aere, presidente da ABRH-SP Tweet
Histórias Reais de Quem Botou a Mão na Massa
Luciana Aparecida de Faria, 45 anos, é um desses casos que parecem roteiro de filme. Arquiteta por 16 anos, resolveu voltar pra faculdade durante a pandemia para realizar um sonho antigo: virar cirurgiã-dentista. E não parou por aí: abriu uma franquia da OrthoDontic em Jacareí (SP) ao lado do marido Ismael, 55 anos. Investimento: R$ 250 mil do próprio bolso.
"Existe uma satisfação indescritível em acordar e trabalhar com aquilo que se ama de verdade."
Luciana, sendo a motivação personificada Tweet
Já Fábio Baida, 45 anos, ex-executivo de Itaú e Santander, decidiu que o mercado financeiro já tinha o suficiente da sua presença e partiu pra outro ramo: lavanderia de autosserviço. Abriu uma unidade da LavPop em novembro de 2024 e já inaugurou a segunda em 2025. O sogro cuida de uma, a mãe ajuda na outra. Empreendedorismo literalmente em família.
"Conforme estou ficando mais velho, vou ampliando minha cabeça de empreendedor."
Fábio, que claramente não leu o manual do envelhecimento convencional Tweet
E tem ainda Solange Feliciano, 48 anos, que enfrentou o etarismo de frente e fundou a Black Women In Tech em plena pandemia para capacitar mulheres negras em tecnologia. Três anos depois: 250 profissionais formadas, parceria com a Microsoft Brasil e 60% delas recolocadas no mercado de trabalho. Detalhe: 10% conseguiram emprego internacional. Com 10 MBAs no currículo, Solange hoje também é gerente na Junior Achievement Brasil.
O Que a Ciência (e o Sebrae) Dizem
Segundo Denis Nunes, analista do Sebrae Nacional, profissionais acima dos 45 tendem a empreender de forma mais planejada. Estudam mais o mercado, têm rede de contatos estabelecida e erraram o suficiente na vida pra saber o que não fazer. Mais da metade dos donos de pequenos negócios trabalhava com carteira assinada antes de abrir a própria empresa.
Aliás, um dado que Fábio aprecia com carinho: pouco depois de abrir sua segunda lavanderia, cabos de energia foram roubados da loja, gerando um prejuízo equivalente a meses de faturamento. Eles tinham reserva. O negócio sobreviveu. Lição: experiência de vida também ensina a guardar dinheiro pra emergência.
Mas nem tudo são Flores
O etarismo ainda é uma realidade velada em muitos processos seletivos. Eliane Aere alerta para o “viés algorítmico”: muitos profissionais são eliminados por software antes mesmo de chegarem à entrevista. O algoritmo não vê experiência, só vê ano de formatura.
A boa notícia: empresas mais inovadoras já começam a enxergar diversidade etária como vantagem competitiva. “O Brasil está envelhecendo e as empresas que não aprenderem a valorizar profissionais maduros vão perder inteligência, repertório e capacidade de inovação”, afirma Eliane.
Prova de que o vento pode soprar a favor: Fernanda Ribeiro Schreiner, 47 anos, advogada que morava no Canadá, voltou ao Brasil em 2023 temendo não conseguir recolocação pela idade. Em mês e meio já tinha emprego. Hoje é gerente jurídica do Insper, trabalhando com um time de gestores experientes.
"O mercado não fechou as portas para os profissionais 45+. Quem criar resistência à tecnologia ficará para trás — e isso vale pra qualquer idade."
Fernanda Schreiner Tweet
O Resumo da Ópera
O Brasil está envelhecendo. As pessoas vivem mais, querem trabalhar mais e precisam se sustentar por mais tempo. O empreendedorismo 45+ é o mercado respondendo a essa realidade demográfica com criatividade, resiliência e, bom, muito CNPJ aberto.
Se você está chegando perto ou já ultrapassou essa marca, saiba: estatisticamente, você está em excelente companhia. E se ainda não sabe o que vai fazer, talvez seja hora de perguntar ao vizinho — ele provavelmente acabou de abrir uma empresa.
Baseado na matéria original publicada no Diário do Comércio | Maio 2026