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O país mais caro do seu próprio atraso

23 23+00:00 junho 23+00:00 2026
O Brasil voltou a fazer aquilo que faz com crescente competência: cair no ranking de competitividade mundial.

Brasil cai para a 65ª posição entre 70 países no ranking de competitividade do IMD/FDC — e confirma, com dados, o que o mercado já sabia há décadas.

O Brasil voltou a fazer aquilo que faz com crescente competência: cair no ranking de competitividade mundial. Saiu da 58ª posição em 2025 para a 65ª em 2026, entre 70 países avaliados pelo IMD World Competitiveness Center em parceria com a Fundação Dom Cabral. Restam abaixo do Brasil apenas Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela. Que companhia.

Não é surpresa. É confirmação. O país cresce 2,1% ao ano desde 1980, enquanto o mundo avança 3,6%. Entre 1950 e 1980, o Brasil crescia 7,3% — acima da média global de 4,5%. O que mudou desde então resume-se em poucas palavras: o Estado cresceu mais do que a economia. O gasto público saltou de 25% do PIB nos anos setenta para mais de 40% hoje, sem que se visse, em contrapartida, qualquer melhora proporcional nos serviços que o Estado teoricamente existe para prestar.

A taxa Selic em 14,25% com juro real entre 9% e 10% é o preço que toda empresa brasileira paga pelo desequilíbrio fiscal. Não é abstração macroeconômica: é a diferença entre um projeto que vai à frente e um projeto que fica na gaveta. O EBITDA some antes de o negócio começar. Nos últimos 12 meses, 1,5 milhão de empresas pediram recuperação judicial — número que, em qualquer país normal, provocaria uma crise política. Aqui, virou estatística de rodapé.

O Brasil aparece nas últimas posições em custo de capital, produtividade da força de trabalho, endividamento corporativo e educação básica. Num ranking de 76 países no PISA, o país ocupa a 65ª posição em Matemática, a 62ª em Ciências e a 52ª em Leitura. São dados que deveriam envergonhar qualquer governo — e qualquer oposição que se apresente como alternativa séria.

A assimetria da abertura comercial explica muito. A agropecuária, setor que se abriu ao exterior, registrou crescimento de produtividade de 6% ao ano nos últimos 30 anos. A indústria, protegida e subsidiada, viu a produtividade cair 0,2% ao ano no mesmo período. A lição é inequívoca: protecionismo não protege o trabalhador — protege o ineficiente à custa do restante.

A taxa de investimento da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano foi de 16,5% do PIB. É baixa para qualquer padrão internacional e ínfima para um país que precisa recuperar décadas de atraso. Com o crédito caro e o ambiente imprevisível, o investidor — nacional ou estrangeiro — opta por cautela. Cautela que custa empregos, renda e futuro.

O populismo tem calendário próprio

E, no meio desse cenário, o que o Senado discute? O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais. O timing é revelador. É ano pré-eleitoral. Reduzir jornada sem aumentar produtividade é distribuir algo que ainda não existe. O custo recai sobre pequenos negócios no comércio e nos serviços, estimula a informalidade e acrescenta mais um degrau à ladeira que o país já desce com desenvoltura.

O economista Antonio Lanzana, da USP, resume o problema com precisão cirúrgica: as condições de trabalho deveriam ser negociadas entre empresários e trabalhadores, levando em conta as particularidades de cada setor. “Infelizmente, o populismo fala mais alto, principalmente considerando que é um ano de eleições.” Dito assim, sem rodeios, como convém a quem analisa décadas de escolhas erradas.

A saída está na conta de sempre

A saída conhecida há décadas: controle de gastos, abertura comercial, reforma administrativa, ambiente previsível para negócios e investimento eficiente em educação. A reforma tributária ajuda, mas no médio prazo. Educação, no longo. O problema é que o curto prazo eleitoral consome os dois.

O PISA é eloquente. Com um dos maiores investimentos em educação como proporção do PIB entre os países em desenvolvimento, o Brasil figura na 65ª posição em Matemática entre 76 países avaliados. O dinheiro vai, o resultado não vem. A ineficiência do gasto público é transversal — não respeita ministério, não distingue área.

O Brasil tem mercado interno relevante, tem posição geopolítica e atrai investidores apesar de si mesmo. Mas “apesar de si mesmo” é fraca fundação para um país que quer crescer. Gana e Peru, economias menores e menos conhecidas, têm ambiente de negócios melhor avaliado. Isso não é acidente estatístico — é resultado de escolhas.

65º entre 70 não é azar. É política.

Fonte: Diário do Comércio

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