A revista Time, uma das publicações mais respeitadas do planeta, fez exatamente isso: mapeou os 10 nomes do varejo que estão moldando tendências em 2026. É a estreia de um recorte setorial dentro da sua famosa lista das 100 Empresas Mais Influentes. E o resultado é, no mínimo, surpreendente.
Tem de tudo: luxo barato, robô entregador, roupa alugada, eletrônico usado e etiqueta eletrônica de prateleira. O analista Neil Saunders, da consultoria GlobalData Retail, resume bem o que une nomes tão diferentes: “O segredo é manter-se próximo do cliente e continuar evoluindo.” Parece simples. Não é.
A livraria que se recusou a morrer
A Barnes & Noble é um daqueles casos que a imprensa adorava enterrar. Livraria física, concorrendo com a Amazon, numa época em que todo mundo migrava pro digital. Não tinha como dar certo, certo? Errado.
Em 2019, o grupo Elliot — dono da rede britânica Waterstones — comprou a rede e fez o óbvio que ninguém tinha feito antes: voltou a focar no que a livraria sabe fazer de verdade. Livros. Sem enrolação. Sem tentar ser uma loja de eletrônicos disfarçada de livraria.
A virada foi deixar os funcionários de cada loja escolherem o acervo com base no público local. Parece detalhe, mas é o tipo de coisa que faz um cliente entrar e sair com três livros que ele nem planejava comprar. Enquanto isso, a marca soube aproveitar o boom do BookTok — a comunidade de leitores no TikTok — sem abrir mão do charme físico das lojas.
O resultado? 60 lojas novas só em 2025, mais 60 previstas para este ano, e a aquisição da Books Inc. no segundo semestre do ano passado. Não parece muito um negócio moribundo.
O Bichinho de Pelúcia que virou Máquina de Dinheiro
Fundada em 1999 no Reino Unido, a Jellycat nunca teve pretão de mudar o mundo. Ela faz bichinhos de pelúcia. Fofos. Bem fofos. Mas em algum momento entre 2013 e 2024, algo aconteceu: o faturamento saltou de US$ 7 milhões para US$ 445 milhões.
A lógica parece simples: peças colecionáveis geraram uma febre global. Mas o que realmente catapultou a marca foi a experiência nas lojas. A Jellycat não coloca as peças numa prateleira e espera. Ela cria mundos. O Jellycat Diner dentro da lendária FAO Schwarz em Nova York. A Jellycat Patisserie no quinto andar das Galerias Lafayette em Paris. O Jellycat Ski Club em Los Angeles.
São ativações que transformam a compra num evento. Adultos vão lá tão animados quanto as crianças. E saem com sacolinhas. E postam nas redes. E o ciclo recomeça. Simples assim.
Luxo? Sim. Caro? Já não.
Líder da lista da Time, a Quince foi fundada em 2018 na Califórnia e vale hoje US$ 10,1 bilhões. A proposta é direta: tecidos de alta qualidade — cashmere, seda, linho premium — a preços que não te fazem chorar na hora de conferir o cartão. Para isso, a empresa negocia diretamente com as fábricas, cortando intermediários.
Mas o que diferencia a Quince de uma simples marca de roupa barata é o uso da inteligência artificial para prever o que as pessoas vão querer comprar. A própria diretora de estratégia de marca, Dakota Kate Isaacs, explicou à Time: “Não se trata mais de analisar o que a concorrência faz. Trata-se de entender o que o consumidor realmente quer e onde existe a oportunidade de entregar isso mais rápido, com melhor qualidade e a um preço mais acessível.”
Sustentabilidade que funciona — e dá lucro
Dois outros nomes da lista apostam no reaproveitamento, e estão indo muito bem obrigado. A Back Market, francesa, facilitou a vida de quem quer vender ou comprar eletrônico usado com segurança. Começou com smartphones, foi expandindo para tablets, computadores e até eletrodomésticos. Dá um ano de garantia nos produtos. Resultado: consumidores confiando e comprando.
Já a Nuuly apostou no aluguel de roupas por assinatura. Por US$ 98 por mês, o assinante fica com seis peças durante 30 dias. A empresa gerencia armazéns próprios, lavanderia e estrutura de reparo. Resultado: quase 400 mil assinantes ativos. Moda circular funcionando na prática.
Tecnologia que já está nas prateleiras
A lista ainda traz duas empresas de tecnologia aplicada ao varejo. A Vusion, francesa, é especialista em etiquetas eletrônicas de prateleira — aquelas que substituem os papelzinhos de preço e permitem atualizar informações em tempo real, mostrar promoções e até controlar estoque. Uma prateleira que pensa. Tecnologia assim já foi vista em ação na chamada “Loja do Amanhã” em Cingapura.
A DoorDash, por sua vez, ficou famosa pelo delivery. Mas o que chama atenção agora é a expansão das entregas feitas por robôs autônomos. Começou com o robô Dot em Phoenix, depois fechou acordo com a Serve Robotics — que já tem mais de 2 mil robôs circulando pelos Estados Unidos. É o futuro entregando pizza. Literalmente.
E os outros? Whatnot, Warby Parker e Shopify
A lista se completa com mais três nomes interessantes. A Whatnot é um app de vendas por leilão ao vivo — uma mistura de live commerce com a adrenalina de dar lances. A Warby Parker revolucionou a experiência de comprar óculos ao deixar o cliente experimentar armações em casa antes de decidir. E a Shopify, já bastante conhecida no Brasil, continua democratizando o e-commerce para pequenos e médios empreendedores ao redor do mundo.
O que elas têm em comum?
Nenhuma dessas empresas virou tendência por acidente. Cada uma, à sua maneira, entendeu que o mercado não recompensa quem fica parado. Algumas apostaram em tecnologia. Outras em experiência. Outras em propósito. Mas todas fizeram a mesma coisa: ouviram o cliente e responderam com inteligência.
Como disse Saunders, da GlobalData: se o critério fosse só tamanho, Amazon e Walmart estariam aqui. Mas a lista da Time é sobre influência — sobre quem está ensinando os outros a pensar diferente. E nesse quesito, até um bichinho de pelúcia tem o que ensinar.